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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

19
Abr22

Por aqui e por ali 97

Zé Onofre

              97

 

996/05/12

 

                I

 

Quando, de repente,

O último gesto for feito,

Apenas se ouvirá o silêncio.

Um silêncio nosso,

Que o vento há de soprar,

O mar bramir,

E as estrelas continuarem.

Seremos, então,

Poeira cósmica,

Frio interestelar,

Pó no vento,

Gota de água no mar.

Que o vento há de soprar,

Depois do último gesto se executar.

 

                II

 

Quando a loucura

Se desatar em chamas

E a razão for vencida pelo medo,

Apenas teremos tempo de abrir

E já não voltar a fechar os olhos.

Quando a loucura chegar

Diremos apenas o som do ar.

Zé Onofre

01
Out21

Penafiel 48-49

Zé Onofre

                   48

 

25/11/977

 

Hoje está um dia incaracteristico.

Será que um dia incaracterístico

Tem características?

As características

Dos dias incaracterísticas

É não terem características.

 

                 49

 

29/11/977

 

As pedras.

As palavras.

As pedras calam silêncios.

As palavras calam sulcos,

Cavam rotas,

Rios,

Riachos

Nas pedras caladas

De silêncios.

O silêncio,

Grito abafado,

Dorido,

Pleno de emoções.

As palavras,

Pedras lançadas

Ao silêncio

Granítico

Dos outros.

Os outros,

Pedras gigantes,

Gritos,

Uivos,

Raiva lancinante,

Á espera,

À espreita

De um “Abre-te Sésamo”

- Cheio de alegria,

Ou de dor -

Mas que abra,

Em cada silêncio

Um rio,

Um mar

De Palavras por nascer.

 

Há silêncios nas minhas mãos.

Há gritos incontidos nas palavras

Soltas uma a uma,

Folhas outonais

De Novembro a acabar.

Há raiva nos meus dentes.

Há fúria da razão por vencer.

Há ira ensanguentada

No estilete

Da palavra.

Há sentidos

Caídos ao amanhecer.

 

Hoje queria fugir

Dos sons,

Malditas cores

Que me trespassam

Como espadas.

Hoje queria fugir

Para a selva maldita

Dos caminhos por achar.

Hoje queria fugir

- Apenas cair,

Não me levantar -

Rastejar insensível

Pelas pedras geladas

Em silêncios gratuitos.

        Zé Onofre

09
Ago21

Souto 27

Zé Onofre

             27

22/02/975

          I

Vivem-se dias,

Milhentos dias

Num intervalo de um só minuto.

Horas, dias, meses, anos

Apenas tempos de existência,

Em que o existir

Prevalece sobre a vida

                 II

Horas, dias, meses, anos

Intervalos

Entre os minutos da vida.

Tudo se cumpre num minuto

A vida e a morte,

O tudo e o nada.

Cada minuto de vida

Prolonga-se infinitamente.

Entre um e outro,

Dias, meses, anos

De existência incolor.

                   III

A existência

Só será vida

Se vivida todos os minutos

Com razão,

Com imaginação,

Com aventura

E imprevisto.

          IV

Viver dia

Após dia

Seguido de outros dias

Meramente por viver,

Porque se respira.

Saber que o amanhã

É um tempo depois de hoje

É a vida feita fóssil.

            V

A vida

É o imprevisto que nos aguarda

Na esquina de cada minuto,

A vida é saber

Encontrar o desconhecido

Que se nos depara a cada minuto,

Assumi-los sem receio,

Sem hesitações,

Fazer de cada um daqueles minutos

O primeiro e o último

E depois o nada.

       Zé Onofre