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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

15
Dez21

Por aqui e por ali 20

Zé Onofre

               20

 

983/01/30

 

         I

 

Que fizeste,

Que fizeste dos teus dezoito anos?

Que fizeste aos teus dezoito anos?

Em que praia,

Ou rio

Os deixaste soterrados?

Que fizeste aos teus dezoito anos?

 

        II

 

Não,

Não foi esta vida que sonhaste?

Não,

Não sonhaste uma televisão

E chinelos

E silêncios.

Não,

Não foi isto que sonhaste.

Não,

Não sonhaste chuva e vendavais,

E tremores de terra.

Sonhaste

Horizontes sem montes.

Não,

Não foi isto que sonhaste,

Não sonhaste uma televisão,

Uma barriga,

Chinelos

E silêncio

Não,

Não foi isto que sonhaste,

Não.

Que fizeste aos teus dezoito anos,

Que fizeste?

 

        III

 

Agora,

Só te falta uma careca

E uma ranchada de miúdos

A dizer papá.

E tu,

Com a baba a escorrer,

Pela barriga redonda.

Afagar em cada um,

Os sonhos que enterraste

Um a um.

Zé Onofre

01
Out21

Penafiel 48-49

Zé Onofre

                   48

 

25/11/977

 

Hoje está um dia incaracteristico.

Será que um dia incaracterístico

Tem características?

As características

Dos dias incaracterísticas

É não terem características.

 

                 49

 

29/11/977

 

As pedras.

As palavras.

As pedras calam silêncios.

As palavras calam sulcos,

Cavam rotas,

Rios,

Riachos

Nas pedras caladas

De silêncios.

O silêncio,

Grito abafado,

Dorido,

Pleno de emoções.

As palavras,

Pedras lançadas

Ao silêncio

Granítico

Dos outros.

Os outros,

Pedras gigantes,

Gritos,

Uivos,

Raiva lancinante,

Á espera,

À espreita

De um “Abre-te Sésamo”

- Cheio de alegria,

Ou de dor -

Mas que abra,

Em cada silêncio

Um rio,

Um mar

De Palavras por nascer.

 

Há silêncios nas minhas mãos.

Há gritos incontidos nas palavras

Soltas uma a uma,

Folhas outonais

De Novembro a acabar.

Há raiva nos meus dentes.

Há fúria da razão por vencer.

Há ira ensanguentada

No estilete

Da palavra.

Há sentidos

Caídos ao amanhecer.

 

Hoje queria fugir

Dos sons,

Malditas cores

Que me trespassam

Como espadas.

Hoje queria fugir

Para a selva maldita

Dos caminhos por achar.

Hoje queria fugir

- Apenas cair,

Não me levantar -

Rastejar insensível

Pelas pedras geladas

Em silêncios gratuitos.

        Zé Onofre