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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

22
Fev22

Por aqui e por ali 62

Zé Onofre

                  62

 

sd

 

A sombra da noite

 

A noite cai. Não se ouve qualquer estrondo porque é silenciosa, como silenciosos são os passos que não se ouvem na noite silenciosa.

A noite cai. Num dia longínquo do nosso passado cai a noite roçagante de sedas maviosas e perfumes que nos inebriam, como inebriantes foram os folguedos do dia.

A noite cai. Silenciosa. Escura. Triste.

A noite cai, em silêncios de palmas de mãos abertas.

A noite cai, como pedras provindas do desconhecido, como sonhos que sonharam alvorecer.

A noite cai. Cai.

A noite cai. Cai sem a promessa de esperanças de um novo dia.

A noite cai definitiva.

A noite cai.

 

Na noite que cai é a sombra que se levanta.

A sombra e os pesadelos.

A sombra e os pesadelos levantam-se como adamastores

No solilóquio que transparece na solidão e frieza destas horas.

A sombra sem esperança de luz.

A sombra sem esperança de seja o que for.

   Zé Onofre

21
Dez21

Por aqui e por ali 26

Zé Onofre

               26  

 

985/03/28, Marco, acção de formação sobre bibliotecas

 

         I

 

Ah,

Se o mundo

Fosse apenas a solidão.

Ah,

Se fosse apenas.

 

         II

 

Palavras,

Pedras nuas

À espera de carinho.

 

Palavras,

Arestas,

Gumes,

Sequiosas de sangue

Que as reguem.

 

Palavras,

Mãos nuas estendidas

À espera da esmola,

Do bulício …

Ou do silêncio apenas.

 

                                        III

 

Aqui ou ali, ontem ou amanhã, ou mesmo hoje Ivo estará sempre só.

E não só Ivo, como todos os Ivo deste mundo. Mesmo aqueles que não foram à guerra, mas são geradores de guerras.

Mesmo aqueles que medindo a distância em metros, apenas pensam em alcances de mísseis.

Mesmo aqueles que não sendo mutilados pensam o mundo sem onténs, ou amanhãs, mas no tempo eterno de uma explosão de neutrões.

Todos se sentirão sós por não se terem interrogado, antes de agir – que direito tenho eu de premir o gatilho, ou o botão? – e, mais ainda, quando nem um hipotético pastor houver para lhes perguntarem – quem são vocês?

E os outros, nós sós estamos por não fazermos a pergunta agora, enquanto há tempo e não eternidade. 

     Zé Onofre

26
Out21

Penafiel 70

Zé Onofre

                  70

 

___/04/978

 

Quero cantar

Os gitos 

Feitos pedras

Nos dias abjetos

A que chamamos viver.

 

Quero cantar

Hoje

Não as prostitutas

Os operários,

Os bairros de lata,

As crianças abandonadas,

Os velhos dos bancos do jardim.

 

Quero apenas cantar

Os humildes

Que vivem na sombra

Dos telhados

Das casas mortas.

 

Quero cantar

A mulher feita objeto,

Corpo de prazer,

Jarra, ornamento.

 

Quero cantar

Aquele homem

Que vive de terra em terra,

Sem terra,

Sem casa,

Que morre

Nas bermas da opulência.

 

Quero cantar

Aquele vagabundo

Que bebe

Estrelas de luar.

 

Quero cantar

As flores do jardim,

As estrelas,

O sol,

A solidão,

Companheiros

De quem morre em vida.

    Zé Onofre

15
Out21

Penafiel 64

Zé Onofre

                     64

 

___/03/978

 

Às vezes,

Só às vezes

Os sons são silêncios.

Nem sempre

Os silêncios são pedras.

As pedras,

Às vezes são distâncias,

Nem sempre solidão.

De pedras são os caminhos.

De pedras é a alegria plena

Do dia-a-dia.

Às vezes a lonjura

É estar perto,

Nem que para lá chegar,

Se caminhe um infindável caminho

De pedras

Que, às vezes

São palavras amigas.

Silenciadas?

Talvez.

    Zé Onofre

14
Out21

Penafiel 63

Zé Onofre

                  63

 

03/03/978

 

Solidão

É ter o direito de dizer a nossa palavra

E calá-la.

É ter espaço para a gritar

E não o aproveitar.

É ter pernas

E não querer andar.

É ter olhar

E não querer ver.

 

Solidão

É o diz-se, diz-se

Das mesas do café.

É o murmúrio

Nos recantos dos corredores.

É ter a luz acesa

E apaga-la.

 

Solidão

É ter o dever de falar

E calar.

É ter o dever de ocupar o espaço

E abandoná-lo.

É ter o dever de andar

E amarrar as pernas.

É o dever de olhar em frente

E baixar os olhos.

 

Solidão

É querer estar só.

São estas paredes cheias

Do silêncio das nossas vozes.

É vazio gritado

De murmúrios.

É o sussurro bichanado

Ao ouvido do teu amigo.

 

Solidão

É ter o dever de estar presente

E fugir.

É direito de estar

E não o usar.

    Zé Onofre

 

 

12
Set21

Penafiel 25

Zé Onofre

25

 

08/06/976

 

Parece que as pessoas não gostam da verdade.

A verdade magoa,

Mas tem de ser dita!

É esta a realidade

Quem a negará?

 

Sempre,

Sempre o mesmo vazio

A mesma solidão.

Sempre,

Sempre o frio

De dizer não.

Sempre,

Sempre a mesma arenga

Para ouvidos surdos.

Sempre o blá-blá-blá

Para se fingir

Que se faz

    Zé Onofre

15
Jul21

Souto 11

Zé Onofre

11

30/09/973

Que fazer

Da solidão e do desespero.

Da angústia e do desatino,

Do nada e da plenitude,

Um novo amor?

Que fazer

Das palavras sentidas

Longamente perdidas,

No sem fim de rumores,

No eco dos rumores,

Nos uivos e nos gritos,

Na vozearia e da gritaria,

Nas curvas da louca mente,

No troar permanente,

Nos confins do mundo,

No mar profundo,                                 

Nos areais açoitados pela ventania,

Um novo amor?

Que criar entre mim e ti, entre nós,

Com o perdido e despedido,

O trucidado e aboquejado,

O desfeito e rarefeito,

O contrafeito e imperfeito,

O desiludido e temido,

O negado e estraçalhado,

O falado e calado,

O dito e contradito

Amor?

Inventar tudo de novo?

  Zé Onofre

14
Jul21

SOUTO 10

Zé Onofre

         10

 27/07/973

Quero inventar,

Do caos e do nada,

Do deserto e da solidão,

Da tristeza e da melancolia,

Do ódio e da guerra,

Um novo amor.

Quero inventar

As palavras que faltam,

Os sons desconhecidos,

Os sentimentos não sonhados,

As regras nunca sonhadas,

Para que do fundo do infinito,

Surja um novo amor.

   Zé Onofre

Quero inventar os seres,

A vida

Que dará existência

A um novo amor.

Quero inventar…

Se tudo já foi dito,

De trás para afrente,

De cima para baixo,

Baralhado e extraído em mil frases,

Concordantes

E contraditórias,

Sobre o desterrado,

Emparedado,

Assassinado Amor.

02
Jul21

Souto 4

Zé Onofre

4

04/07/972

É noite.

Noite e solidão.

Nada de novo,

Sem movimento

Tudo estagnado.

Quero ritmo,

De loucura,

De amor,

Ou de paz.

Quero ritmo

Sem angústias,

Ou lamentações,

Sem tristezas.

Cansado de escrever palavras

Que vão,

Que veem,

Que em círculo fechado rodam.

Palavras

Que vão,

Que veem

Condenadas a carregar

Uma carga,

Eternamente

À procura

Da estabilidade.

Criar ritmos novos

Que me levem

Desta solidão,

Das recordações

Que me impedem de criar futuros impossíveis,

De fugir deste inferno,

De “quem não encontra a vida,

Achará apenas a morte”.

Estou cansado

De curtos circuitos,

Círculos de fogo,

Que me encurralam

Nas prisões do passado,

Queimam

As passagens, para o futuro.

Quero novos ritmos,

Que sejam de indiferença,

De hinos execráveis,

De palavras sem sentido,

Mas que levem a caminhos diferentes.

Quero novos ritmos,

Que só na aparência

Sejam de alegria,

Que de amor

Sejam só palavras,

De amor,

Apenas gritos ao vento.

E se voltasse aos meus castelos,

São de cartas,

Sejam de cartas.

São de areia,

Sejam de areia.

Desfazem-se à mais fina aragem,

Pois que se desfaçam,

Em aves de papel

Em figuras de pó.

Quero regressar ao meu jardim

De onde tudo

Me roubaram,

Onde me perdi.

Num caminho longo,

Num caminho curto,

Ou por veredas desconhecidas.

Percursos vividos sem norte,

Em passos desatinados,

À deriva do tempo,

À deriva no espaço.

Quero partir esta solidão,

Cortar os laços com que amarrei,

O meu próprio rumo.

Quero despedaçar

A rede que teci

Em que me enredei.

Fugir.

Mais uma vez fugir?

  Zé Onofre

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