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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

14
Mai22

Por aqui e por ali 123

Zé Onofre

                    123

 

2003/__/__

 

Se não fosse a curiosidade

Que vem

Não se sabe de onde

 

Da pedra fortuitamente

Lascada

Não teria havido o machado,

 

Nem da faísca casual

Surgiria

O fogo sagrado.

 

Se não fosse a inquietude

Que vai

Não se sabe até que além,

 

Na martirizada Suméria

A escrita

Não teria tido o seu natal,

 

Nem teria havido pirâmides,

Nem Grécia,

Nem Roma Imperial.

 

Se não fosse este sonho

Que nos empurra

Sempre para mais e mais longe,

 

A escravatura seria

Ainda

A lei e a ordem,

 

O privilégio seria a norma

Não haveria

A declaração Universal dos direitos do Homem.

  Zé Onofre

16
Abr22

Por aqui e por ali 95

Zé Onofre

              95

 

996/02/23, acção de formação no Colégio S. Gonçalo. Amarante

 

No princípio era a tribo

E na tribo se fazia gente.

E a tribo era o espaço todo,

E a tribo era o tempo.

Havia o tempo e o espaço.

Havia a vida e o sonho.

 

Depois foi a cidade

E foi o campo.

Na cidade o espaço foi partido,

E o tempo encurtou.

O campo foi medido

E o tempo passou de sol a sol.

 

Na cidade foi o comércio,

O tempo contado,

O espaço diminuiu.

No campo foram as várias culturas,

O espaço foi contado.

O tempo diminuiu.

 

A cidade cresceu

As ruas apertaram

Os bairros nasciam

O espaço cada vez mais despedaçado,

O tempo cada vez mais controlado.

No campo a produção aumentava,

Nasciam os armazéns das sobras,

Os homens aumentavam

O espaço foi organizado,

A água dividida,

O tempo controlado.

 

Na cidade aumentavam 

As oficinas, e as oficinas eram escolas.

Na cidade aumentava o comércio,

Nascia a palavra escrita e o número,

E o comércio era a escola.

Da cidade partiam barcos,

À cidade chegavam barcos,

Nascia o tempo mecânico,

E os portos e os barcos eram a escola

 

Lentamente

As oficinas,

O comércio,

Os portos e os barcos,

Deixaram de servir de escolas,

Pois não respondiam

Aos problemas do dia-a-dia

Cada vez mais complicado.

E nasciam as escolas

Que ensinavam com o conhecimento

De experiência feito.

 

Havia ainda espaço e tempo de, e para a vida.

 

Finalmente a escola educativa, formativa.

Sem espaço e sem tempo,

Com salas a correr por corredores,

Com tempo escasso para as apanhar.

Espaço-tempo medido

Em fracções mínimas de espaço-tempo.

Lugar de passagem sempre p’r’à frente,

Que é preciso passar velozmente sem repouso.

 

A escola tornou-se um corpo estranho à vida.

Às vezes desabrocha em pérolas

Corpo estranho à escola que as enquista e cerca.

Zé Onofre

12
Abr22

Por aqui e por ali 91

Zé Onofre

              91

 

Livração sem data e sem lugar. O tempo e o lugar é estarmos com os amigos onde eles estiverem

 

Amigo Alexandrino

 

A ver se sossego, o desassossego que me toma ao passar frente à casa dos teus pais.

A ver se a saudade dos tempos, em que o tempo era feito com as nossas mãos, não se esvai pela névoa da distância que o tempo aumenta.

A ver se o fogo sagrado se não apaga de vez e continua em chama no recôndito dos dias que passam.

A ver se resistimos, ainda e sempre, à monotonia de um tempo, este, que pretende esmagar o sonho, a magia e as noites de luar.

Principalmente para dar um abraço sentido ao amigo ausente, sempre presente.

Para te enviar o que inopinadamente li numa noite de recordações e emoções fortes.

Não fora a ocasião, que foi, e nunca me atreveria a ler o que li e nunca prometeria o que prometi.

Cada linha que escrevo tem o sentido de mim mesmo. Não é muito do meu agrado andar a expor-me em público. Mas o prometido é devido.

Aí vão. Usa-as apenas para ti, como saudade de um tempo que esperamos reviver um dia.

Zé Onofre

996/01/05, Amarante, confeitaria Mário

 Zé Onofre

03
Abr22

Por aqui e por ali 83

Zé Onofre

                83

 994/10/16

                 I

Que é

Do fogo ardente

Que iluminava o nosso caminho?

Que é

Da fúria

De fazer o futuro ontem?

Que tempo é este

Que levanta barreiras

Onde deveria haver, apenas, sonho e magia?

Que tempo é este

Que tudo macula?

Que tempo é este?

Que tempo,

Sem tempo

Para sonhar mais longe.

                II

Que bom,

Poder olhar o céu

Sem sonhos no olhar.

Que bom,

Poder apreciar a paz

Sem lágrimas nas palavras.

Que bom,

Pisar serenamente

As pedras da calçada.

                III

Quanto mais bom seria,

Incendiar de sonhos

O futuro,

Iluminar de pureza

O caminho,

Semear de flores

A gravidade dos dias.

  Zé Onofre

19
Mar22

Por aqui e por ali 72

Zé Onofre

              72

 

991/04/23, Porto, Hotel Boega, Acção de Formação Ensinar é investigar

 

Chora palhaço

A tristeza perdida

No dia da tua estreia.

Chora palhaço

A dor do sonho perdido

No dia da tua estreia.

Chora palhaço,

Chora palhaço.

 

O que interessa não é percorrer o caminho,

É o modo como se percorre o caminho.

O importante é que tenha sido feliz a caminhada.

O resultado é sempre o mesmo – fim de linha.

 

 

De palavras sonhamos a vida.

De palavras enchemos a felicidade.

De palavras falamos o silêncio das nossas almas.

 

De linhas traçadas ao acaso

Fazemos encruzilhadas

Que querem ser vida.

Só ilusões nos unem,

Só ilusões se cruzam e entrecruzam.

 

Viagem ao país do impossível,

À solidão de cada um na cidade fria e cinzenta.

A viagem ao país do faz de conta,

Da magia, da fantasia,

E fuga das alegrias estudadas e normalizadas da cidade.

Viagem ao reino das paredes brancas

Onde tudo pode ser e nada é.

      Zé Onofre

14
Fev22

Por aqui e por ali 56

Zé Onofre

                 56

 

1989/05/09, ação de formação na Escola de Vila Garcia, AMT,

 

                        Receita

 

Pegue-se na vida,

Envolva-se em calda de amor

Quanto baste.

Depois

Mexa-se bem mexido

Com a alegria das palavras

O tempo preciso.

Então

Junta-se o sonho,

A aventura,

O sol,

O vento…

Por fim

A criança que falou,

E escreveu

Lerá.

13
Fev22

Por aqui e por ali 55

Zé Onofre

                55

 

989/05/__, Escola de Vila Garcia, AMT

                       

O sonho,

Só o sonho,

É belo.

 

O resto é silêncio

Às vezes gritado,

Às vezes murmurado.

Apenas deserto,

Solidão, amargura.

 

O desafio de noventa e dois,

É o desafio tecnológico,

Da informática, da máquina,

Do movimento, da ação.

 

Ler

É sonho,

É vida,

É lonjura,

É chegar mais além.

Zé Onofre

12
Dez21

Por aqui e por ali 17

Zé Onofre

               17

 

982/04/01

 

Se me permite,

Minha senhora.

Eu

Falo-lhe em cães,

Gatos e coelhos,

Milho e centeio,

Vindimas e desfolhadas

Porque, raios

E carga de água,

A senhora me fala

De meninos bem comportados?

Porque me fala

Em príncipes encantados,

Ou não.

A mim, pobre criança,

Que palmilho

Descalço

Nunca as lonjuras do sonho,

Sempre as pedras ásperas do caminho?

Fala-me

Do que não entendo

E nunca dos montes e dos ninhos

Dos campos verdes onde me rebolo

Nas tardes amenas da Primavera,

Enquanto a vaca,

Pachorrenta vaca pasta.

 

Fala-me de casas,

De janelas

E não da lonjura dos horizontes

Lá,

Onde o verde dos pinheiros,

E o azul do céu, se misturam.

Onde o vento sopra forte

Em Agosto.

Lá onde os passarinhos voam

Em asas de sonho!

Lá,

A beleza,

O sonho

Voam

Em planuras de Liberdade.

 

Porque me fala

De grades,

Paredes,

Prisões,

A mim que sou livre,

Travesso,

(Assim o diz)

E gosto de movimento!

 

Porquê?

 

A srª professora fala-me,

Fala-me,

De letras, e sílabas e palavras,

Ou de palavras, sílabas e letras.

Srª professora

Ajude-me a falar,

A falar,

Sobre o meu porco morto.

      Zé Onofre

08
Nov21

Por aqui e por ali 5

Zé Onofre

               5

 

980/12/11, Gouveia, MCN

 

Senhor professor,

Creio em si,

Gosto de si,

Mas aborrece-me tanto!

Despeja palavras,

Palavras, palavras

Sobre os meus ouvidos.

Pobres ouvidos,

Os meus.

Ontem,

Por exemplo ontem,

Falei-lhe …

Falei-lhe das minhas galinhas

Que comem milho,

Que põem ovos …

E do galo

Que canta ao amanhecer.

Falei-lhe…

Falei-lhe do meu porco 

Que engordou no Verão

E hoje está morto.

 

Não te dão o pão

Que te roubam

No dia-a-dia.

Não te cobrem o frio,

Nem te aliviam o calor

Que padeces

De sol-a-sol.

Não te ensinam

A vida

Que te sugam sem parar.

De real,

Nem o sonho

Te permitem.

Apenas,

Apenas te oferecem

Ilusões.

Mastigas,

Nas chicletes

A fome

 Por matar.

  Zé Onofre

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