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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

14
Jan22

Por aqui e por ali 42

Zé Onofre

                 42

 

988/03/21, escola de Portela, Aboim AMT

              

                 I

 

Como estranho caminho entre as pessoas.

Passo atrás de passo, procuro, autómato

Os caminhos da vida.

 

Como estranho me deito.

Como estranho me levanto.

Como estranho vivo,

Autómato, do dia-a-dia.

 

Como estranho perpasso

Pelos dias sem fim.

 

Que desperdício de sonhos.

Que desperdício de esperanças.

Que desperdício de sonhos de encantar.

 

                II

 

Olho o longe como quem lá chegou.

E não viveu o caminho p’ra lá chegar.

Olho o longe como quem lá chegou

E nada fez para o alcançar.

Olho o longe como quem lá chegou

E está desesperado por voltar.

 

               III

 

Qual nuvem ligeira, vagueio no céu

Onde o vento me modela

A seu bel-prazer.

 

Umas vezes sonho de criança feliz.

Outras, pesadelo de náufrago

Que nem uma palha tem

A que se agarrar.

  Zé Onofre

04
Jan22

Por aqui e por ali 36

Zé Onofre

              36

 

986/08/11, Livração

 

Por caminhos desconhecidos,

Levam-me as pernas desalentadas.

Falais-me de solidão

Como um monopólio

Mas ela não é só vossa.

 

Por sonhos do passado

Caminho descompassadamente

À procura.

Só encontro solidão.

 

Falais-me do desespero da solidão,

Como se fosse um monopólio

Quando ele não é desgraça só vossa.

15
Dez21

Por aqui e por ali 20

Zé Onofre

               20

 

983/01/30

 

         I

 

Que fizeste,

Que fizeste dos teus dezoito anos?

Que fizeste aos teus dezoito anos?

Em que praia,

Ou rio

Os deixaste soterrados?

Que fizeste aos teus dezoito anos?

 

        II

 

Não,

Não foi esta vida que sonhaste?

Não,

Não sonhaste uma televisão

E chinelos

E silêncios.

Não,

Não foi isto que sonhaste.

Não,

Não sonhaste chuva e vendavais,

E tremores de terra.

Sonhaste

Horizontes sem montes.

Não,

Não foi isto que sonhaste,

Não sonhaste uma televisão,

Uma barriga,

Chinelos

E silêncio

Não,

Não foi isto que sonhaste,

Não.

Que fizeste aos teus dezoito anos,

Que fizeste?

 

        III

 

Agora,

Só te falta uma careca

E uma ranchada de miúdos

A dizer papá.

E tu,

Com a baba a escorrer,

Pela barriga redonda.

Afagar em cada um,

Os sonhos que enterraste

Um a um.

Zé Onofre

13
Dez21

Por aqui e por ali 18

Zé Onofre

                 18

 

982/04/28, Viariz BAI

 

Estava sentado

À sombra verde das ervas,

Das ervas verdes,

Na berma da estrada

Mais o seu cão lázaro.

Mais o seu cão lázaro.

 

Gostava dos sonhos que viveu,

Falava do que não viveu,

Na berma da estrada,

Ao seu cão lázaro,

Ao seu cão lázaro.

 

Caçava, com raiva,

O tempo sentado

À sombra das ervas,

Das ervas verdes,

Na berma da estrada

Mais o seu cão lázaro,

Mais o seu cão lázaro.

    Zé Onofre

08
Dez21

Por aqui e por ali 14

Zé Onofre

                 13

 

982/ 03/__, Vila Caiz, AMT

 

Queria falar em mil coisas

Que ficaram por dizer.

Queria pensar em mil sonhos

Que ficaram por sonhar.

Queria falar talvez

Das saudades do que não fiz,

Das esperanças que não nasceram,

Dos sonhos que murcharam.

Queria falar de tudo

Que não foi e murchou

Nas minhas mãos secas.

Queria falar,

Queria falar,

Queria falar …

   Zé Onofre

02
Dez21

Por aqui e por ali 8

Zé Onofre

               8

 

981/03/30, Telescola, Gouveia, MCN

 

Quem me dera já no Inverno,

Sentado nas longas noites frias,

A recordar.

 

Se fora já o Inverno,

Agora, neste momento,

Recordaria …

 

Recordaria estes sonhos

Que não foram realidade,

O passado, estas longas páginas brancas

De sonhos mortos ao nascer.

 

Quem me dera já o Inverno,

Para poder recordar

O sonho que não se fez,

A esperança vencida!

 

Quem me dera já o Inverno

Com as suas melenas brancas

E o frio,

Um frio penetrante

Que avivasse todos os sonhos

Que ficaram pelo caminho.

 

Quem me dera já o Inverno

Com a sua verdade crua

E sem esperança de vida já.

 

Quem me dera já o Inverno,

Já hoje,

Ou amanhã,

Mas queria o Inverno já!

    Zé Onofre          

13
Nov21

Por aqui e por ali 6

Zé Onofre

                 6

 

1981/02/23, Gouveia – MCN

 

Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se fazem os sonhos.

 

Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se constroem mundos novos.

 

 Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se enfurece o mar.

 

Dizei-me, nem que seja em murmúrios,

A vida serena

Do sol a cantar.

 

Dizei-me por favor,

A poesia de uma noite,

Mesmo que não tenha luar, nem estrelas,

Que seja só de sombras e trevas.

 

Gritai-mas,

Dizei-mas,

Vós as sabeis.

 

Um dia não veio à escola,

Ficou em casa

A fazer bagaço.

Quem me disse que ele era criança?

 

No primeiro dia de aulas

Não veio à escola,

Ficou em casa a trabalhar.

Com que direito o avaliaremos negativamente?

 

Queria ter um laço vermelho,

Grito de alegria

Na cabeça a sorrir.

 

Queria usar palavras sinceras,

Gritos de luz

Na boca a sorrir.

 

Queria ter palavras misteriosas,

Sons e cores da vida a começar.

Zé Onofre

02
Out21

Penafiel 50

Zé Onofre

50

 

30/11/977

 

Natal

Natal.
Que palavra mágica
De enganar com ternura.
Há negociantes
Vendedores de Natal a metro.
Há velhos,
Roucos de silêncios
Nos bancos do jardim.
Há bairros de miséria,
Emparedados
Nas cercanias da opulência.
Há chuva,
Há vento,
Há sol,
Contratempo.
Há neve,
Algodão branco,
Nas montras.
Há casas de penhores
Em esquinas
De ruas esquecidas.
Vê-se lá,
A miséria do povo
À venda, nos mostruários,
As ilusões
Por uns míseros tostões.
Há casas decoradas
Com vermelhos,
Sangue,
Grito abafado
Nos corações,
De quem corre atrás do impossível.
Trabalhadores "apressadas"
Crianças, olhos arregalados
Bocas salivando,
Junto à montra das ilusões.
Há casas coloridas,
Cores arrancadas
À fome do dia a dia
De quem envergonhado,
Vai escondendo a fome que os alimenta.
Há risos,
Sorrisos,
Nas faces.
Há passos
apressados
Nas pedras dos caminhos
Há fúrias incontidas
No fundo das cores.
Há angústia,
Há raiva.
Há gente apressada
Levando amor,
Levando a paz,
Em embrulhos coloridos
Até às casas dos esquecidos da vida.
Bem sei,
É Natal...
Não deveria dizer,
Não deveria contar,
Não deveria expor
A realidade crua do outro lado do Natal.
Deveria guardá-la
No segredo
Do silêncio
Das grades dos sonhos perfumados,
Dos salões
Onde se projecta «este» Natal.

E, contudo,
Um dia fui criança.
Gostava de ir ao musgo,
À relva,
Aos galhos de árvores.
Gostava do presépio
No cantinho da sala,
De me levantar no Dia de manhã
Encontrar lá
Algum rebuçado deixado
Pelo Menino Jesus.
Gostava do presépio
Junto ao altar da Igreja
Que ajudara a fazer.
Gostava da noite "do par ou pernão",
No fim da Ceia,
À volta da lareira.
Gostava das brincadeiras
No largo da Igreja
À espera da Missa do Galo.
(Se me é permitido
Tenho saudades, mas muitas,
Desse Natal.)
Tenho saudades daquele Natal
Em que a Rosário respondeu ao Sr. Abade
- O Natal é comer!
(Por que caminhos te achaste,
Rosário?)
O que aconteceu ao "eu" rapazinho
Que tenho saudades
Das pinhas assadas no braseiro,
Do musgo fofo do monte,
Das brincadeiras na noite mágica
Da Missa do Galo,
Para agora olhar,
As gentes e as ruas,
As montras com neve de algodão,
As casas tremelicantes de luzes,
E sem ânimo,
Entre a saudade e o desespero,
Dizer
"Bem sei
É Natal.

  Zé Onofre

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