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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

27
Mai22

Por aqui e por ali 136

Zé Onofre

                   136

 

015/05/22, Colégio da Formiga, Ermesinde

 

Aqui estou

De visita a mim mesmo, outro.

Aqui estou

A olhar o que fui,

Naquilo que sou.

Olho sem olhar,

Vejo sem ver,

Ouço sem ouvir,

O que os sentidos agora sentem

Ao ver este espaço tão diferente.

Procuro entender

Onde estão os passos que dei.

Dei?

Onde os sonhos que vivi.

Vivi?

Onde as conversas que tive.

Tive?

Onde os carvalhos que os abrigaram?

Olho e não vejo o que vejo.

Olho e não vejo o que vi.

Assisto a um tempo parado

Que ficou lá atrás.

Estou aqui fora do espaço,

Parado no tempo

De visita a mim mesmo.

     Zé Onofre

02
Mai22

Por aqui e por ali 111

Zé Onofre

               111

 

999/05/27

 

Sala de Teatro do Filandorra, “Bodas de sangue”, Vila Real

 

Que coisa espantosa é esta

Que por espaços ignotos nos leva

E no tempo nos faz viajar?

 

Que coisa espantosa é esta

Que nos carrega num raio de luar

- Barca do tempo,

Gume,

Ou carinho,

Que ora nos embala nos braços do amor,

Ora nos rasga o rosto de morte

E nos embarca para o nada?

 

Que coisa espantosa é esta

Que faz de conta que é vida

E que mais espantoso ainda

Que é ali,

Naquele jogo de faz de conta,

Que está a vida toda,

E que nós deste lado

É que estamos a sonhar.

   Zé Onofre

29
Abr22

Por aqui e por ali 108

Zé Onofre

128

 

997/12/20

 

Tempo,

Dai-nos tempo.

E o tempo passa

Sem tempo

Para dar ao tempo.

 

O tempo não passa.

Nós é que passamos pelo tempo.

O tempo está.

Usamos o tempo

Que o tempo nos dá.
  Zé Onofre

22
Abr22

Dia de hoje 101

Zé Onofre

                 101

 

sd

 

O certo é que,

E para o caso pouco importa,

O caso é, digo eu

Que Inês é morta.

 

Não foi preciso o “Bravo”,

Nem a sua sombra tutelar,

Que usou um Pacheco qualquer

Como arma mortal.

 

Apenas se o tempo foi Rei

E a rotina, que longamente se instalou,

Foi do Pacheco a mão assassina

Que o sonho ao amanhecer matou.

 

Agora resta-nos

Reconstituir em fita,

Fazer de conta que o tempo não passou

Que a rotina não se instalou.

 

O certo é,

E para o caso até importa,

Que Inês é morta.

   Zé Onofre

17
Abr22

Por aqui e por ali 96

Zé Onofre

                 96

 

996/05/12, visita a uma amiga instalada no asilo, Amarante

 

Aqui estão parados,

Simulando que vivem.

Aqui estão a viver um tempo

Que não existe,

A gastar um sopro 

Que está suspenso.

Aqui estão

Envoltos num passado,

Num presente suspenso

Que não terá futuro.

Aqui estão desertos de sonhos,

Suspensos do tempo,

Ausência do hoje,

Sem possíveis amanhãs.

  Zé Onofre

16
Abr22

Por aqui e por ali 95

Zé Onofre

              95

 

996/02/23, acção de formação no Colégio S. Gonçalo. Amarante

 

No princípio era a tribo

E na tribo se fazia gente.

E a tribo era o espaço todo,

E a tribo era o tempo.

Havia o tempo e o espaço.

Havia a vida e o sonho.

 

Depois foi a cidade

E foi o campo.

Na cidade o espaço foi partido,

E o tempo encurtou.

O campo foi medido

E o tempo passou de sol a sol.

 

Na cidade foi o comércio,

O tempo contado,

O espaço diminuiu.

No campo foram as várias culturas,

O espaço foi contado.

O tempo diminuiu.

 

A cidade cresceu

As ruas apertaram

Os bairros nasciam

O espaço cada vez mais despedaçado,

O tempo cada vez mais controlado.

No campo a produção aumentava,

Nasciam os armazéns das sobras,

Os homens aumentavam

O espaço foi organizado,

A água dividida,

O tempo controlado.

 

Na cidade aumentavam 

As oficinas, e as oficinas eram escolas.

Na cidade aumentava o comércio,

Nascia a palavra escrita e o número,

E o comércio era a escola.

Da cidade partiam barcos,

À cidade chegavam barcos,

Nascia o tempo mecânico,

E os portos e os barcos eram a escola

 

Lentamente

As oficinas,

O comércio,

Os portos e os barcos,

Deixaram de servir de escolas,

Pois não respondiam

Aos problemas do dia-a-dia

Cada vez mais complicado.

E nasciam as escolas

Que ensinavam com o conhecimento

De experiência feito.

 

Havia ainda espaço e tempo de, e para a vida.

 

Finalmente a escola educativa, formativa.

Sem espaço e sem tempo,

Com salas a correr por corredores,

Com tempo escasso para as apanhar.

Espaço-tempo medido

Em fracções mínimas de espaço-tempo.

Lugar de passagem sempre p’r’à frente,

Que é preciso passar velozmente sem repouso.

 

A escola tornou-se um corpo estranho à vida.

Às vezes desabrocha em pérolas

Corpo estranho à escola que as enquista e cerca.

Zé Onofre

12
Abr22

Por aqui e por ali 91

Zé Onofre

              91

 

Livração sem data e sem lugar. O tempo e o lugar é estarmos com os amigos onde eles estiverem

 

Amigo Alexandrino

 

A ver se sossego, o desassossego que me toma ao passar frente à casa dos teus pais.

A ver se a saudade dos tempos, em que o tempo era feito com as nossas mãos, não se esvai pela névoa da distância que o tempo aumenta.

A ver se o fogo sagrado se não apaga de vez e continua em chama no recôndito dos dias que passam.

A ver se resistimos, ainda e sempre, à monotonia de um tempo, este, que pretende esmagar o sonho, a magia e as noites de luar.

Principalmente para dar um abraço sentido ao amigo ausente, sempre presente.

Para te enviar o que inopinadamente li numa noite de recordações e emoções fortes.

Não fora a ocasião, que foi, e nunca me atreveria a ler o que li e nunca prometeria o que prometi.

Cada linha que escrevo tem o sentido de mim mesmo. Não é muito do meu agrado andar a expor-me em público. Mas o prometido é devido.

Aí vão. Usa-as apenas para ti, como saudade de um tempo que esperamos reviver um dia.

Zé Onofre

996/01/05, Amarante, confeitaria Mário

 Zé Onofre

03
Abr22

Por aqui e por ali 83

Zé Onofre

                83

 994/10/16

                 I

Que é

Do fogo ardente

Que iluminava o nosso caminho?

Que é

Da fúria

De fazer o futuro ontem?

Que tempo é este

Que levanta barreiras

Onde deveria haver, apenas, sonho e magia?

Que tempo é este

Que tudo macula?

Que tempo é este?

Que tempo,

Sem tempo

Para sonhar mais longe.

                II

Que bom,

Poder olhar o céu

Sem sonhos no olhar.

Que bom,

Poder apreciar a paz

Sem lágrimas nas palavras.

Que bom,

Pisar serenamente

As pedras da calçada.

                III

Quanto mais bom seria,

Incendiar de sonhos

O futuro,

Iluminar de pureza

O caminho,

Semear de flores

A gravidade dos dias.

  Zé Onofre

01
Mar22

Por aqui e por ali 66

Zé Onofre

               66

 

990/04/11, Escola Soares dos reis, Porto, observando um slide de uma pintura, ação de formação do Ensinar é investigar

 

E o tempo parou.

Ali ficará para sempre a olhar o nada.

Bastará ligar a luz,

Hoje,

Ou amanhã,

Horizonte parado sem chama

E sem ideia.

Só,

Eternamente só.

Sem passado, nem futuro

Num tempo parado,

Num espaço sem tempo.

  Zé Onofre

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