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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

02
Dez22

Dia de hoje 78 - Canto triste XIV

Zé Onofre

              78

 

                  Canto triste XIV

 

022/12/02

 

“O ano de 2023 vai ser mais duro do que 2022”, Marcelo, o presidente a visar o povo que se prepare para mais um período de Austeridade.

 

Povo trabalhador ouve com atenção,

Para entenderes que no que não é dito

É que encontras o verdadeiro sentido

Das palavras ditas com a intenção

Para que fiques totalmente convicto

Que é o único rumo a ser seguido.

 

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem que aprendeste a lição.

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem quem é o teu patrão.

 

Povo trabalhador ouve com atenção.

O poder exige sacrifícios outra vez,

A ti que tens a vida bem complicada,

Fazem-te crer que estes dias são

Normais, que não vejas clara a avidez,

Dos que vivem da tua vida suada.

 

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem que aprendeste a lição.

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem quem é o teu patrão.

 

Povo trabalhador ouve com atenção.

Nunca ouviste os nossos governantes,

Pedirem ao patronato, num só momento,

O que a ti tiram sem qualquer comiseração,

Que os lucros, do próximo ano em diante,

Terão que ser reduzidos a zero por cento.

 

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem que aprendeste a lição.

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem quem é o teu patrão.

   Zé Onofre

10
Nov22

Dia de hoje 74 - Canto triste X

Zé Onofre

                   74

 

Canto triste X

 

022/11/10

 

Porque é que vais por esta vida

Entorpecido sem pensar

Que a escravatura não é vencida

Ainda temos muito para lutar.

 

Quem te vê ir de crista caída

És pessoa já derrotada,

Mesmo antes de ser vivida

A luta ainda não começada.

 

Por escritórios e fábricas,

Arrastas os passos doridos,

Com velhos enganos abdicas

De tempos mais coloridos.

 

Evitas ver nos outros rostos

Uma dor tamanha como a tua,

Temes que teus olhos neles postos

Bem unidos consigais até a lua.  

 

A luta é difícil, não percas a fé

Se tiveres que a luta recomeçar.

Mais vale viver um dia de pé,

Do que uma vida longa a rastejar.

 

Ver-te assim tão conformado

Com o teu viver tão cinzento

Fingires que não vives frustrado,

Para a revolta te faltar atrevimento.

   Zé Onofre

30
Mai22

Por aqui e por ali 139

Zé Onofre

             139

 

015/12/13

 

Um abraço à Rosinha e ao sr. Alves, pelos cinquenta anos de casamento, do Zé Onofre e da São

 

alves 2.jpg

 

A vida é uma árvore.

Ora tronco liso,

Cortado por fortes nós.

Sem os nós,

Seria monotonia.

Pleno de nós,

Seria um pesadelo.

 

A vossa vida desabrochou em ramos,

Que aos ramos, novos ramos se acrescentem,

Com delicadas flores

Que frutificarão em frutos,

Em sorridentes e preciosas alegrias,

Até ao infinito

   Zé Onofre

16
Abr22

Por aqui e por ali 95

Zé Onofre

              95

 

996/02/23, acção de formação no Colégio S. Gonçalo. Amarante

 

No princípio era a tribo

E na tribo se fazia gente.

E a tribo era o espaço todo,

E a tribo era o tempo.

Havia o tempo e o espaço.

Havia a vida e o sonho.

 

Depois foi a cidade

E foi o campo.

Na cidade o espaço foi partido,

E o tempo encurtou.

O campo foi medido

E o tempo passou de sol a sol.

 

Na cidade foi o comércio,

O tempo contado,

O espaço diminuiu.

No campo foram as várias culturas,

O espaço foi contado.

O tempo diminuiu.

 

A cidade cresceu

As ruas apertaram

Os bairros nasciam

O espaço cada vez mais despedaçado,

O tempo cada vez mais controlado.

No campo a produção aumentava,

Nasciam os armazéns das sobras,

Os homens aumentavam

O espaço foi organizado,

A água dividida,

O tempo controlado.

 

Na cidade aumentavam 

As oficinas, e as oficinas eram escolas.

Na cidade aumentava o comércio,

Nascia a palavra escrita e o número,

E o comércio era a escola.

Da cidade partiam barcos,

À cidade chegavam barcos,

Nascia o tempo mecânico,

E os portos e os barcos eram a escola

 

Lentamente

As oficinas,

O comércio,

Os portos e os barcos,

Deixaram de servir de escolas,

Pois não respondiam

Aos problemas do dia-a-dia

Cada vez mais complicado.

E nasciam as escolas

Que ensinavam com o conhecimento

De experiência feito.

 

Havia ainda espaço e tempo de, e para a vida.

 

Finalmente a escola educativa, formativa.

Sem espaço e sem tempo,

Com salas a correr por corredores,

Com tempo escasso para as apanhar.

Espaço-tempo medido

Em fracções mínimas de espaço-tempo.

Lugar de passagem sempre p’r’à frente,

Que é preciso passar velozmente sem repouso.

 

A escola tornou-se um corpo estranho à vida.

Às vezes desabrocha em pérolas

Corpo estranho à escola que as enquista e cerca.

Zé Onofre

16
Fev22

Por aqui e por ali 58

Zé Onofre

                 58

 989/09/___

               Ser Professor

Só aos burros se ensina

A fazer uma ou outra habilidade.

Que aquilo que lhes é da vida,

Não precisam que se lhes ensine,

Fazem-no com naturalidade.

 

A partir daqui tudo se resume

A uma pequena e simples escolha.

Ser-se um domador sério,

Perfeito, consciencioso, zelador,

Ou um marco na via do saber.

 

O problema agora está

Na definição do que se pretende.

Alunos bons, alinhados,

Capazes de habilidades espantosas,

Ou descobridores de pequenas/grandes coisas?

14
Fev22

Por aqui e por ali 56

Zé Onofre

                 56

 

1989/05/09, ação de formação na Escola de Vila Garcia, AMT,

 

                        Receita

 

Pegue-se na vida,

Envolva-se em calda de amor

Quanto baste.

Depois

Mexa-se bem mexido

Com a alegria das palavras

O tempo preciso.

Então

Junta-se o sonho,

A aventura,

O sol,

O vento…

Por fim

A criança que falou,

E escreveu

Lerá.

13
Nov21

Por aqui e por ali 6

Zé Onofre

                 6

 

1981/02/23, Gouveia – MCN

 

Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se fazem os sonhos.

 

Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se constroem mundos novos.

 

 Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se enfurece o mar.

 

Dizei-me, nem que seja em murmúrios,

A vida serena

Do sol a cantar.

 

Dizei-me por favor,

A poesia de uma noite,

Mesmo que não tenha luar, nem estrelas,

Que seja só de sombras e trevas.

 

Gritai-mas,

Dizei-mas,

Vós as sabeis.

 

Um dia não veio à escola,

Ficou em casa

A fazer bagaço.

Quem me disse que ele era criança?

 

No primeiro dia de aulas

Não veio à escola,

Ficou em casa a trabalhar.

Com que direito o avaliaremos negativamente?

 

Queria ter um laço vermelho,

Grito de alegria

Na cabeça a sorrir.

 

Queria usar palavras sinceras,

Gritos de luz

Na boca a sorrir.

 

Queria ter palavras misteriosas,

Sons e cores da vida a começar.

Zé Onofre

08
Nov21

Por aqui e por ali 5

Zé Onofre

               5

 

980/12/11, Gouveia, MCN

 

Senhor professor,

Creio em si,

Gosto de si,

Mas aborrece-me tanto!

Despeja palavras,

Palavras, palavras

Sobre os meus ouvidos.

Pobres ouvidos,

Os meus.

Ontem,

Por exemplo ontem,

Falei-lhe …

Falei-lhe das minhas galinhas

Que comem milho,

Que põem ovos …

E do galo

Que canta ao amanhecer.

Falei-lhe…

Falei-lhe do meu porco 

Que engordou no Verão

E hoje está morto.

 

Não te dão o pão

Que te roubam

No dia-a-dia.

Não te cobrem o frio,

Nem te aliviam o calor

Que padeces

De sol-a-sol.

Não te ensinam

A vida

Que te sugam sem parar.

De real,

Nem o sonho

Te permitem.

Apenas,

Apenas te oferecem

Ilusões.

Mastigas,

Nas chicletes

A fome

 Por matar.

  Zé Onofre

01
Nov21

Daqui e por ali 2

Zé Onofre

                    2

 

1979/11/14

 

Mulher

Nossa irmã

Companheira.

Fizemos-te

Objeto,

Adorno,

Enfeite,

Propriedade,

Jarra florida.

Mãe,

Esposa,

Amante.

Mulher,

Minha irmã

Companheira.

Mulher,

Cidadã.

 

Só,

Emoldurada numa casa,

Abandonada,

Retirada da vida.

Roubamos-te a vida

A ti

Que dás a vida.

Roubamos-te a existência,

Tu

Que és existência.

Proibimos-te

A vida,

O ser,

O existir.

Amarramos-te,

Tu

Que és a liberdade.

Mulher

Não és sacrifício,

És cidadã.

 

Isolada,

 Fantasma  do passado,

Medo,

Sacrifício,

Recusa,

Abandono,

Doação.

Mulher

És cidadã.

Mulher,

Minha irmã,

Companheira.

 

Lixeira,

Essa solidão em que vives.

Lixeira,

Essa distância em que ficas.

Lixeira,

Essa lonjura do mundo.

Lixeira,

Esse fundo com que te confundes.

Lixeira,

Essa jarra que maquinalmente arranjas.

Lixeira,

A espera que fazes todos os dias.

Lixeira,

Esse tempo que vives adormecida.

Lixeira,

O desinteresse com que te entregas.

Lixeira,

Essa tua voz conformada.

Lixeira,

A cabeça que manténs baixa.

Lixeira,

A tua humanidade ofendida.

Lixeira,

A humilhação a que te sujeitamos.

Lixeira,

A tua vida de sujeição.

 

Flor

Serás, um dia.

Tu mesma,

Plena,

Humanizada.

Mulher,

Flor

Serás, amanhã.

  Zé Onofre